Epigrafário


EPIGRAFÁRIO

1."...A permanente repetição de uma ou mais palavras(...).Os monges repetiam continuamente a mesma palavra da escritura(...) Andavam com a palavra na esperança de que ela os tomasse enquanto caminhavam; na esperança de penetrá-la,experimentá-la(...) " ( Lendo Anselm Grun; "A caminho ")

2. " Ler ao pé da letra é uma extravagância que não se pode levar a cabo"; "Nenhuma palavra equivale precisamente a outra"; "Não há,pois,uma fórmula para a boa leitura,já que as variáveis são virtualmente infinitas"; por isso "não pode haver senão rascunhos. O conceito de texto definitivo não corresponde senão à religião ou ao cansaço" ( Jorge Luis Borges )

3. " ...poderá pairar um sorriso,mas que seja incerto ou vagamente inefável,como a nostalgia irremediável e sutil de quem sabe que tudo é vão e que os ventos que incham as velas dos sonhos nada mais são que ar,ar,ar." (Passado Composto.Três cartas. Do livro: Os voláteis do Beato Angélico,de Antônio Tabucchi)

4. " ... a misteriosa importância de existir...!! " ( Gastão Cruz,poeta,citando Fernando Pessoa,outros )

5. " ... se o mundo é criado pelo verbo divino,apenas a atuação infinita da palavra sustenta e lhe confere realidade. " ( Rodrigo Petrônio )

6. " Da leitura da palavra até a reconstituição,através dela,do jardim do paraíso "

7. "o nome é uma prótese,um implante que vai se confundindo com o corpo até se converter em um fato quase biológico ao longo de um processo extravagante e demorado" ( Juan José Millás; "O Mundo" )

8. "Eu era o cenário no qual havia acontecido um nome" ( Juan José Millás; "O Mundo")

9." ... nomina nuda tenemus " ( "nada temos além dos nomes"; )






PROCUL ESTE PROFANI


1. Quassar



a palavra "quassar" vem do latim : "quassare" (frequentativo de 'quatere' - com o sentido de reduzir a pedaços. Em farmacologia usa-se o termo com este significado: de reduzir um produto a fragmentos. A palavra me recorda ainda a palavra "qussás"- rapsodo (poeta) -equivalente ao latim : raphsodia - composição poética que se organiza com variados fragmentos.



1.

com o avião
ou com o vento
se sobe ao céu

(à proporção que entendemos o vento,simplificamos os mecanismos de vôo.Vejam o ultra-leve.Diante das grandes catedrais,lembro da oração que se fazia a Deus com apenas as duas mãos e a voz no meio do deserto)


2.

Deixa-me
ficar contigo
e vai-te

(onde é possível a amada,senão em nós?Lembro o poeta camões:"o amador se transforma na coisa amada",e a lição de Eduardo Sterzi sobre a Beatriz de Dante Alighieri:"...é na interioridade do poeta,sobretudo,que a dama amada ganha existência:ela é,mormente,um fato de memória,de imaginação e,sobretudo,de palavras...")


3.

Florezinhas amarelas
em perfeitos retângulos
para azeitar as máquinas

(umas flores amarelas de onde se extrai um óleo lubrificante.Enquanto os turistas veem as pequenas flores,o que veem nelas os lavradores?)


4.

uma caveira
seus músculos,sua gordura
seus vestidos,sua dor

(ao lado de antigo túmulo,um vitral reproduz "a dança da morte".Quem será capaz de vê-la dançar consigo,enquanto vive?)


5.

a noite
que os relógios acusam
o sol escondeu

(sobre estas noites que andam por aí com um sol na mão...)


6.

Ó pai
não tireis de Hermes
as costelas de Afrodite

(a ninfa enamorada pediu a Zeus que fundisse o seu corpo com o do seu amado.Assim se transformou o Hermafrodito nessa criatura ao mesmo tempo homem e mulher. Nesse milagre,talvez o mesmo que tirou eva das costelas de adão,alguém morre pelo caminho...)


7.

a piaçaba raleou,partiu-se o cabo
varrendo o outono
pra debaixo do tapete

(outono.Este infindável trabalho de recolher as folhas mortas e manter limpo o nosso jardim)


8.

finos e brancos
flocos na cabeça da serra
fazem água

(os cabelos ficam brancos e finos,adquirem uma delicadeza todavia incapaz de esconder que morrem)


9.

vão-se os livros
leve,fique de pé
o móvel

(recordo a lição da poesia árabe tradicional que se conserva na oralidade,na memória da gente,infensa aos suportes materiais que lhe condenariam ao tempo precário dos objetos... Como libertar a palavra do livro,do peso do papel,e trazê-la na alma)


10.

neves eternas
passam as estações
sobre as montanhas altas

(eis o que entre nós se pode saber sobre a eternidade...)


11.

quando acabo de comer
o que tenho nas mãos
a fome acabou


12.

tão metidos no chão
os pneus,que nem sabe a lama
o carro que vou levando


13.

felicidade virtuosa
Dos Anjos: as asas batendo
no ar 

(escrivão dos atos da vida da pessoa natural,anotei no livro a morte de Dona Felidade Virtuosa dos Anjos,que alguém poderia chamar: "dos anjos",como deve ser afinal toda a felicidade virtuosa que,no entanto,morreu aquí em minha cidade,posso atestar,em virtude de insuficiência respiratória...)


14.






a favor do vento
com as asas abertas
deixando o tempo passar


15.



a vida
em moldura,com título
e autoria


16.


alguma inclinação da terra
para correr a água
e tocar nas pedras


17.


o vôo
quero, não quero
o passarinho














Glossário

  • O Dia do Juizo - "Jornal", do latim: "diurnalis" - diário. Em francês - "journal" - papel diário - publicação diária que dá notícia dos fatos que vão ocorrendo.
  • A Ressurreição - "desaparecer" - " forma-se do Latim dis-, “o oposto de”, mais apparere, “surgir, aparecer”. E este verbo é uma combinação de ad-, “a”, mais perere, “ser visível, vir à frente”. Seria o oposto do que está visível; o que não aparece.
  • As Bodas de Caná - "Brete"- do castelhano: "brete" - armadilha feita com dois paus para caçar pássaros; ou ainda: pequeno curral,ou corredor fechado de arame de ambos os lados,onde se abatem,vacinam ou ferram as reses. Sobre a palavra: "pensar"como diz o Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) : "... é estar doente dos olhos..." Do latim: "pensus"- adjetivo,com o sentido de :" inclinado", "pendido", ou "pensar", do latim : "pensum" para dizer: "curativo",ou referindo-se a crianças (ou a quem se comporta como tal) e/ou animais : tratar deles, dar-lhes sustento ( a ração diária ),limpá-los,curar-lhes as feridas,etc...
  • A Escritura - "Morcego" - o nome reúne um vocábulo de origem latina : " mure" - para dizer: "rato" e mais a palavra "cego", querendo significar : "rato cego". O animal pertence à ordem "chiroptera", do grego : "Kheir" - "mão" - e "pteron" - "asa" - indicando uma qualidade do animal - as mãos expandidas em forma de asas.