12 de julho de 2026

 

91.



Exige o pasto

estar de raso

na vida, aparar

todo dia e cortar


o mato,

seja a malícia

violácea e fingida


o espinho debaixo

da folha assustadiça

ou pau ferro, alto,


o tempo limpo

entre cercas, o gado

que consinto;


exige o trato

da vida, o novilho

engordar de sentido


a carne até

o filé.



26 de junho de 2026


90.


o filósofo risonho


Por que risonho,

Demócrito? O sonho

da alma findo,

triunfa, rindo

a zombeteira matéria.


Obriga a miséria

da existência, reduzida

a ossos e cinzas

(nada além disto),

no mínimo, este riso.


Pela régua do eterno

medir estes restos

salvados do teu corpo

tão completamente morto? 


Ó se queres bem

à vida que tens,

rí, tu também.



30 de maio de 2026

 



89.



Deixa ir,

Pai, o sol,

E a noite vir

Em mi bemol

 

Para a mão

Esquerda, pianíssimo,

Outra razão

 

Incapaz de silogismo;

De partitura

Tocar improviso

 

A noite escura

Sem visto

Para o céu.

 

O abajur fiel

À cabeceira, retirai

Do quarto:

 

A noite apenas, Pai,

Ostinato.



2 de maio de 2026

 

88.



Eis que chegou maio.

 

E daí que maio chegou?

Aqui nesta parte são flores

Em outra parte neve

Maio em qualquer parte

 

Hão de hastear aqui

Azul, a bandeira de Maria,

Ajoelhar-se aos Lares acolá

À beira do fogo

 

O coração de gelo

Arde no monturo

pútrido eclode

Na verdura comum

 

Em qualquer estação

Passa o trem;

Passamos às vezes

Às vezes vemos passar.




5 de abril de 2026

 

87.



Deus riu

E povoou-se o vazio

De gente:

Este ente

 

De matéria

O lábio e o dente

Da comédia:

 

Sob esta dentadura

Nada dura

Sápido, e o gozo de viver

 

Este jardim de cores

Várias, de pétalas

De flores

 

se destina a morrer

E morrendo, se converter

na cor, no perfume, no esplendor

 

Risonho

De um sonho. 




16 de fevereiro de 2026

 


86.



Ai quem pode
sob a árvore bodhi
quedar-se assim
diante de si?

enquanto buzina
a vida estridente
e corre a gente

pela avenida
o mapa que consente
engarrafado fazer

média:
esta razão inversa
do largo ser.

pode a matéria,
afeita à dieta
pública do convívio,

consigo
viver?




27 de dezembro de 2025

 



85.


Ulisses, és tu o Rei
Em Ítaca? Não sei
Entre os pretendentes
Ao governo da gente
 
Quem o servo , quem o Senhor.
Ulisses, viajor
Das ondas a esmo
 
Em movediça embarcação,
Quem torna à si mesmo
Do extremo mar,
 
O norte do coração
Ainda apontando
Para o mesmo lugar?
 
Abertas, a todo pano
As velas, pensas levar
O vento aonde queiras?
 
Ulisses reina,
reinou, reinará. (21)




8 de dezembro de 2025

 


84.

“ fosfeno”



Outras palavras
De moldável argila
Onde a mão lavra
O discurso da vida

Não a sintaxe
Lógico discursiva
Mas de carne

E osso, a liga,
Este nome
À experiência das estrelas

Escreva o homem
De olhos fechados
E órbitas sob pressão 

Sólidos pintados
Na pedra, a visão 
Espantada dos astros

Fazê-las assim
De mim.







29 de outubro de 2025




83.



O que fez
À ti, Arlequim
O rei
Infernal em mim

Esta verruga
Que torce o nariz
E a cara enruga

Até rir
Uma cicatriz?
Nos trapos de pano

De chita 
Um de cada
Cor, nada

Indica
A farda, o losango
Em cetim,diagonal,

As galas
Da comédia geral.



(16.02.2017)





3 de setembro de 2025




82.



Há um tempo
De fazer escolhas,
Deixar o vento
Ir, sem folhas

O tronco despido;
Por fazer, a barba,
Nenhum sentido

Orientar a navalha;
O menino
Fechar a cara;

Um tempo de não
Dizer. A palma
Sob os dedos,

Encolhido o grão
Na vagem, em segredo
Ter a alma

Onde o medo
Não saiba.








26 de julho de 2025

 




81.





Quem os teus olhos procuram

Quando invoco o seu nome?

Ao ouvir minha voz

Assoviar seu canto, qual pássaro

Seduzido

Pousa?


És tu esta ave?




20 de maio de 2025

 



80.



Quem lhe disse

Do coração suspenso?

Do verbo fundador?

Desta oração 

Que se faz em pé 

Ante a página em branco

Sem propósito nenhum

Fora de si mesma?


Como catar feijão 

Sem gosto para comer,

A arredondar formas escuras

Onde andam todas as cores encobertas

E um pé ameaça

Nascer?






9 de abril de 2025

 

79.




Que hás de ver

Sem ouvir palavra?

Sobre o olho

Descerra a pálpebra 


O silêncio. Quando

Não se saiba

Dizer, não acha

O olho nada


Nada nada,

Nenhuma praia

À vista, porto

Nenhum paira


Sobre as águas,

E sem ouvir, cego,

Incapaz de carne

O verbo.








26 de janeiro de 2025




78.




Remendei as correias
Da sandália. Prefiro esta
De couro manso
Bico levantado
Palmilha quase no chão
uma parte do solado maior 
do que a outra
Como se soubesse
Quando a terra se levantava
E quando se abaixava
Debaixo dos meus pés.





17 de outubro de 2024

 

76.


empertigo-me às vezes

quanto posso

retilíneo

quanto possível o ar dentro do peito

até as vértebras estalarem,

giro à direita

e à esquerda, errático

a procurar uma saída

das órbitas

quão longe pode ir o braço

para dizer o profundo gesto,

E obrigo às pernas andar

a pequena distância do dia

 E ter o chão debaixo dos pés

até a sola se firmar

e em toda a sua extensão dilatar-se

o corpo.



11 de setembro de 2024

 

75.





Há um tempo

De fazer escolhas,

Deixar o vento

Ir, sem folhas


O tronco, despido;

Por fazer, a barba,

Nenhum sentido


Orientar a navalha,

O menino

Fechar a cara,


Um tempo de não

Dizer; a palma

Sob os dedos


Encolhido o grão

Na vagem, em segredo

Ter a alma


Onde o medo

Não saiba.





15 de agosto de 2024




74.


Escreve o nome
Inventada assinatura
Fazendo voltas duras
Em torno do homem

Escreve contra
O papel que lhe consome
A tinta e a ponta

Da vida
E reduz  até à mínima
Fibra - a pedra

Quando já não pesa
O diamante nem corta,
E se anota,com as cinzas

Suas , na folha de caderno
Do mundo
Estas letras

De levíssima poeira
Cor de chumbo.



23 de junho de 2024


 73.


"No caderno de desenhos de Marcelo Grassmann"



Procuro o estado permanente

dos corpos

com uma fome de abrir o peito

e espalmar as vértebras

o coração 


O esqueleto para fora de si

Gafanhoto

Rinoceronte

os poros cerrados , guarnecida

de acúleos e guantes

a cabeça 

a paineira


Ainda que ronronem as vísceras 

no interior da carapaça 

e a paineira exploda filamentos

de algodão,


procuro um estado de osso

permanente.



4 de maio de 2024

 


72.



Que faç0 eu

a respeit0 de mim

que 0 0utr0 esc0lheu

para si ?


Nada. Que nã0 há-de

ser 0 que nã0 sabe

a gente s0bre si mesm0


c0ntra a necessidade

d0 0utr0 e seu desej0;

assim, de pret0


na escuridã0 atrás

da ribalta, m0ve

um c0rdã0 capaz


de fazer agitar-se

meu c0rp0; este fant0che

0nde se esf0rça a v0ntade


d0 0utr0 de fazer seu

eu.



8 de abril de 2024

 


71.


"Faciens Arcadia"


Arcádia

nã0 cai d0 céu,

alienígena,

nã0 dá em árv0re,

frut0 nativ0


 Malgrad0 0 abism0

que seu h0riz0nte desc0rtina,

se aprende de 0uvir seu murmúri0 

desde 0 úter0

e ler nas cartilhas d0 ABC

embutida em qualquer 0raçã0



 Apesar d0 c0rte 

até a mã0 que 0 empunha

a gente mantém embainhada

 c0ntra 0 mund0.


0 umbig0 c0rtad0.


Nã0 é um lugar para ir,

 turista;

é uma língua

para fazer 0 mund0, c0mbatend0.